Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Não vos indigneis apenas: Ousai! Ambicionai!

Não vos indigneis apenas: Ousai! Ambicionai!

por Socialismo no Século XXI: uma Utopia, uma Mentira ou uma Solução? a Sábado, 28 de Janeiro de 2012 às 18:28
      
       Stéphane Hessel escreveu um livro onde apela à indignação contra este modelo de sociedade que incentiva a exploração do homem pelo homem aumentando o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. É necessário encontrar um novo modelo de distribuição da riqueza quer privilegie uma grande classe média capaz de sustentar um Estado Social que proteja um número que se pretende cada vez menor de carenciados e que faça um combate implacável a meia dúzia de muito ricos que usam todos os expedientes legais para fugir aos impostos.
      É habitual ouvir dizer que a culpa do estado a que chegamos é dos políticos. Em Democracia os políticos são escolhidos pelo povo e se os achamos incompetentes não basta a indignação. É necessário intervir civicamente, contribuindo para a substituição desses políticos por outros mais capazes. Não basta exigir que os políticos resolvam os nossos problemas com ajuntamentos pontuais de indignados, ocupação de praças e folclore. É necessário pensar, reflectir, estar informado, discutir os problemas com o fim de encontrar soluções inovadoras que sejam sustentáveis de modo a resolver com eficácia um problema que devasta os direitos conquistados com suor e sangue por várias gerações desde a revolução industrial.
       O Estado de Bem Estar Social que hoje temos nas sociedades ocidentais não é inato, mas um benefício conquistado que só existe enquanto for preservado e para ser preservado necessita de ser viável num mundo com mais de 7 mil milhões de habitantes que reclamam para si os mesmos direitos que nós temos e que queremos para os nossos filhos.
       É legítimo ambicionar o impossível, pois muito do que temos hoje resulta da ambição e sonho de alguns que muitas vezes pagaram com a vida a utopia de um mundo mais justo e fraterno e que conseguiram tornar possível o impossível, mas depois é necessário muito trabalho, persistência, capacidade de enfrentar as vicissitudes de um trajecto inovador para tornar exequível a ambição legítima de viver num mundo melhor.
      Não basta uma inconsequente e confortável indignação. É necessário dar o passo em frente para aproveitar aquele 1 por cento de inspiração que só dá frutos com 99 por cento de transpiração. No entanto para conseguir 1 por cento de inspiração é por vezes necessário ouvir também 99 por cento de ideias sem nexo e saber fazer a filtragem de modo a aproveitar o trigo que está escondido no meio de tanto joio.
      Fazer revoluções poderá ser fácil, fazer com que elas dêem frutos e contribuam para melhorar o nível de vida das populações já é muito mais complicado e trabalhoso. Revoluções estéreis costumam terminar em ditaduras, com guerras pelo meio, como aconteceu com a revolução francesa que fez ascender Napoleão Bonaparte, com as consequências que sabemos.

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Sobreviverá a União Europeia a 2012?

Sobreviverá a União Europeia a 2012?

por Socialismo no Século XXI: uma Utopia, uma Mentira ou uma Solução? a Domingo, 15 de Janeiro de 2012 às 9:54
           
              Entramos em 2012, um ano que não verá provavelmente o final do mundo profetizado por algumas leituras do calendário maia (tal como não se verificaram as previsões do ano 2000…), mas que será sem dúvida um ano decisivo para Portugal, para a Europa e para o Mundo.
              Particularmente a nós, portugueses, espera-nos um ano difícil com a marca da austeridade, com a qual Portugal se cura ou morre da cura, numa Europa que se refunda ou se afunda.
             Os vaticínios relativos com que a  presente União Europeia se vê confrontada nada têm a ver com aquele apaixonado sonho que sucedeu ao maior e mais sangrento conflito armado do planeta.
            A II Guerra Mundial deixou como herança uma Europa arrasada que sucumbira aos nacionalismos exacerbados e o emergir de duas super potências, a União Soviética e os Estados Unidos da América.
            Este sangrento conflito foi o mais grave de todos os que envolveram ciclicamente ao longo da história os povos europeus, divididos em reinos e impérios que se sucediam uns aos outros,  compostos por gentes de falar, hábitos, costumes e temperamentos diferentes, os quais cultivam rivalidades seculares entre si.
            Durante o processo de reconstrução da Europa foi ganhando corpo a ideia de uma Europa unida que pudesse ser um local de paz e prosperidade de modo a evitar uma terceira guerra mundial.
            A primeira associação foi a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço criada em 1951 por um conjunto de seis países: França, Itália; Alemanha Ocidental, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Esta associação deu origem à CEE criada em 1957 pelo tratado de Roma. Em 1971, o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca juntaram-se à CEE à qual aderiram posteriormente Grécia, Portugal e Espanha.
            O projecto europeu inicial tinha como objectivo construir um espaço comum que beneficiasse todos os cidadãos dos países envolvidos.
            Em 1999 a União Europeia parecia já estar suficiente madura para adoptar uma moeda própria, tendo sido criado o Euro.
            Para garantir a estabilidade do Euro de modo a se tornar uma moeda de referência mundial equivalente ao Dólar americano foi exigido um aos países aderentes um conjunto de medidas que se revelaram incomportáveis para os países periféricos. Devido à sua especificidade própria, os países do sul da europa não conseguiram acompanhar o ritmo dos seus parceiros do norte e para se manterem no pelotão da frente foram recorrendo a artimanhas fiscais que iam enganando o deficit.
            O alargamento a leste da união europeia incorporou povos com salários mais baixos e melhor nível educacional, os quais passaram a competir com os países do sul, levando a uma deslocalização de empresas para estes países.
            Por outro lado, a globalização e o acirrar do consumismo levaram a deslocalização da produção das grandes empresas para a China.
            A crise de 2008 mergulhou os EUA e a UE numa crise só comparável à de 1929 a qual atingiu com particular dureza os países com mais problemas estruturais.
            Em vez de responder como um todo, a União Europeia escolheu penalizar os estados que considerava prevaricadores, tornando insuportável a vida dos seus cidadãos, obrigados a fazer cada vez mais sacrifícios em nome de uma austeridade que só agrava as condições de vida da população e nada tem resolvido.
            Verifico com pesar que há um ressurgir dos nacionalismos exacerbados, aproveitado pelos especuladores para asfixiar as populações, de modo se apossarem de todas as suas riquezas, para engrandecer o seu património.
            A falta de solidariedade dos grandes da Europa para com os pequenos em dificuldades, ao contrário do que pensam, não os põe a salvo da crise, apenas os fragiliza, pois à medida que os pequenos vão caindo, mais facilmente se tornarão presas dos especuladores que tem como religião, o dólar e como princípios, a falta de princípios e de ética.
            Para salvar o Euro, a União Europeia não se preocupa com os direitos de milhões de pessoas que sempre deram o seu melhor para que o seu país funcionasse e não tem culpa que milhões de Euros tenham circulado em negócios menos claros que beneficiaram, apenas alguns, bem encostados ao poder politico.
           Estes mesmos senhores para salvar o seu promissor património vão compramdo alguns grilos falantes para dizer que ou o Euro ou o caos, como se antes do Euro nada existisse...
            Portugal tem mais de oitocentos anos de história e sobreviveu a várias crises. Não foi na Europa que Portugal conseguiu o seu apogeu, mas sim quando fez justamente o caminho contrário, enfrentando os oceanos para expandir os seus domínios.
            Para fazer face a uma Europa cada vez mais germano-centrica, mais egoísta, menos solidária, têm forçosamente de ser encontrados novos caminhos.
            Ou a europa reencontra o seu espirito inicial ou opta por caminhar para a sua implosão, provavelmente violenta.
            Resta-nos contudo o consolo relativo de que por pior que seja o que nos espera haverá sempre sobreviventes.

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Escravatura auto-instituída


por Socialismo no Século XXI: uma Utopia, uma Mentira ou uma Solução?, domingo, 20 de Novembro de 2011 às 11:50
    
        Uma canção dos “Deolinda” lançou o mote para discussão sobre uma realidade que assola a juventude portuguesa e em geral toda a juventude do mundo ocidental. Uma geração cada vez mais qualificada que vai coleccionando títulos académicos é paradoxalmente confrontada com regimes de trabalho mais exigentes e menos remunerados que originaram o desabafo “para ser escravo é preciso estudar”.
            A autoproclamada “geração parva” é filha da geração que teve a melhor qualidade de vida de que há memória e que teve a oportunidade de educar os seus filhos e de lhes dar as melhores qualificações académicas, esperando que lhes fosse reservada uma qualidade de vida ainda superior à sua, que por sua vez tinha já sido melhor que a dos seus pais.
            Por muito cruel que possa ser o nosso destino, fomos nós mesmos que demos o nó da corda que agora se coloca sobre o nosso pescoço pronta a esticar, caso não aceitemos ser tratados como mercadoria por quem manda no dinheiro.
            Ao substituirmos os valores tradicionais por outros que hipervalorizam os bens materiais, as marcas “premium”, as últimas novidades tecnológicas, a moda, a aparência, a futilidade e o supérfluo, tornando a vida uma competição sem regras para alcançar o melhor que as agências de marketing nos querem impingir, subvertemos a espinha dorsal dos princípios que sustentam os pilares básicos duma sociedade solidária. Hoje em dia as pessoas valem não pelo que são, mas por aquilo que aparentam, numa escalada consumista que tudo parece justificar.
A actual sociedade perdeu o fio condutor de uma componente espiritual que moldava um conjunto de comportamentos, voltando-se apenas para o imediato, e associada à fácil modelação das leis que regulam os tribunais, deu fulgor à capacidade de explorar o homem pelo próprio homem.
            A ganância das grandes multinacionais e do sistema bancário induziu uma espiral de consumo de bens ou serviços, esgotando de forma irracional a nossa capacidade de endividamento.
            Para aumentar o volume de vendas e consequente aumento de dividendos, os grandes grupos económicos batalham todos os dias na procura de produtos cada vez melhores e a custos cada vez mais reduzidos.
            Para conseguir preços mais baixos para produtos com cada vez mais qualidade a solução passa, por um lado, por aumentar a escala da produção, conseguida através da construção de grupos económicos cada vez maiores através de aquisições e fusões entre empresas e passa por outro lado pela diminuição dos custos do trabalho conseguida com a redução do número de trabalhadores e respectivos salários. Temos assim muito mais exemplares do mesmo artigo produzido por menos trabalhadores que ganham vencimentos mais pequenos, para o que muito contribuiu a conseguida deslocalização da produção para países onde impera a mão-de-obra barata.
            Com a globalização os grandes grupos económicos conseguiram algo excelente para o consumidor: hoje em dia tem acesso aos mais recentes gadgets de sofisticada tecnologia a custos acessíveis, bastando para isso comparar o que custam e o que custavam artigos equivalentes há 10 anos atrás (telemóveis, TV, computadores portáteis, etc).
            Só que esta maravilha tem um pequeno senão: o consumidor só consome se tiver dinheiro e para conseguir a contracção de custos, muitos trabalhadores foram lançados para o desemprego e os que trabalham são obrigados a trabalhar em condições cada vez mais precárias.
            Para satisfazerem os seus interesses como consumidores, os ocidentais condenaram os seus postos de trabalho, oferecendo-os aos povos que em regime de quase escravatura enchem as prateleiras das nossas superfícies comerciais com produtos de qualidade a preços da china, consumindo-os sem se importar em que condições foram produzidos. Se calhar, os brinquedos que vamos dar aos nossos filhos no Natal foram feitos por crianças da mesma idade que trabalham horas a fio como verdadeiros adultos, mas isso não nos parece importunar a nossa consciência…
Se nada for feito em contrário, aos europeus só restará austeridade sobre austeridade e brevemente estarão tão pobres que não terão dinheiro para comprar os produtos a que habituaram, nem sequer para ter acesso aos serviços públicos de qualidade que durante décadas consideram garantidos e inalienáveis.
É evidente que num planeta com 7 mil milhões de habitantes, o dinheiro que começa a aparecer nos países emergentes tem de vir de algum lado e a capitalização das novas economias tem de vir da descapitalização das velhas economias.
De momento apenas os países periféricos estão a pagar a factura da globalização, mas ela vai acabar por chegar aos países mais industrializados, mais tarde ou mais cedo.
Para evitar soluções como as de 1939/1945 é urgente criar um novo paradigma de sociedade que permita a satisfação dos naturais anseios de uma vida com a qualidade que a tecnologia permite e da satisfação das ambições legítimas dos que querem progredir na sua vida profissional, abrindo caminho a novos horizontes do muito que a ciência ainda esconde, mas que isso seja feito de um modo mais harmonioso e equilibrado com os recursos do planeta.

Europa a ferro e fogo... Brevemente num televisor perto de si?


por Socialismo no Século XXI: uma Utopia, uma Mentira ou uma Solução?, sábado, 5 de Novembro de 2011 às 13:01
   
         Com a bancarrota disfarçada da Grécia, o colapso iminente de Portugal, a pressão dos mercados sobre Itália e Espanha traduzidas em taxas de juro a crescer progressivamente, a Europa está a ser arrastada para um descontrolado redemoinho que a ameaça engolir a qualquer momento.
            A tentativa de colocar a Europa a marchar ao ritmo do compasso alemão está a deixar para trás os países periféricos que se vêem obrigados a aplicar austeridade sobre austeridade para tentar compor as contas públicas, num exercício que mais não resulta do que no empobrecimento forçado das classes médias desses países, assaltadas pelos governantes para pagar contas que não cessam de aumentar.
            A diabolização do funcionário público é o primeiro passo de uma estratégia que visa destruir o Estado Social, diminuir os custos do trabalho e os direitos dos trabalhadores num retrocesso sem precedentes que nos remonta ao princípio da revolução industrial.
            Numa primeira fase a Europa quer ver-se livre dos gregos para salvar a Grécia, depois irá querer ver-se livre da Grécia para salvar a Europa, tal como o fará com Portugal, seu secular companheiro de desgraça.
            Pensarão os alemães e os franceses que a exemplar punição dos PIGS porá a salvo o seu nível de vida e os seus direitos sociais e que as suas fortes economias estarão imunes aos ataques dos mercados, mas tal não passa de uma ilusão pois o empobrecimento forçado da classe média dos países periféricos vai levar a um êxodo dos profissionais mais qualificados para os países mais ricos que acabarão por competir com a mão-de-obra local criando condições para uma desvalorização do trabalho nesses países, proporcionando às respectivas empresas meios para se tornarem mais competitivas a nível de mercado. Por outro lado, se a perda de poder de compra dos PIGS vai diminuir o volume de importações desses países relativamente à Alemanha e França, também por outro lado irá diminuir as importações de produtos chineses, cuja exportação potencia a importação chinesa de produtos de luxo alemães, com efeitos negativos na balança de transacções Alemanha/China.
            Nos países intervencionados, a imposição de mais austeridade só deixa a escolha entre miséria e miséria, levando o povo ao desespero o que vai propiciar ambientes favoráveis a uma contestação violenta generalizada, ainda mais com uma finada classe média proletarizada à força, forte indutor das revoluções que se sabe como começam, mas ninguém sabe como acabam, e que poderão atingir padrões semelhantes a uma guerra civil a qual culminará fatalmente em regimes totalitários a nacionalismos exacerbados  e a conflitos entre países e etnias.
            Se olharmos para a História confirmaremos que a Alemanha que já provocou duas guerras mundiais e quando lhe forem aplicadas pelos donos do capital as receitas que agora estão a impor aos países periféricos, poderão vir à tona sentimentos xenófobos que vimos recentemente na antiga jugoslávia, tendo em conta a crescente população emigrante nas duas mais desenvolvidas economias europeias, principalmente se aqueles a que Sarkozy apelidou de escumalha se revoltarem e voltarem a incendiar as ruas das principais cidades da Europa.
            Uma Europa em conflito é um terreno propício a uma nova intervenção redentora dos EUA que a vergarão aos seus interesses como fizeram na Líbia, Iraque e Afeganistão, intervenção esta que será paga com a reconstrução europeia feita pelas empresas americanas e que é ao mesmo tempo uma tenebrosa solução para um planeta superpovoado.
            Só uma nova Europa, construída na base da solidariedade, que trate de igual modo todos os seus habitantes, com uma administração comum, uma política externa comum, uma língua oficial comum, umas forças armadas comuns livres do cordão umbilical castrador que as subjuga aos interesses dos EUA, só esta Europa será capaz de bater o pé aos EUA (e às potencias emergentes) e defender o interesse dos europeus.
            Os alemães têm de perceber que só defendendo a Europa como ela foi pensada inicialmente é que poderão defender os seus interesses nomeadamente alargando o perímetro de segurança das suas fronteiras, caso contrário voltarão a ficar isolados e mais facilmente vulneráveis a ameaças exteriores.
            A solução para a crise europeia tem de ser primariamente política, tomada por pessoas com capacidade de contextualização histórica e social, com visão estratégica global, com capacidade de mobilização de consciências de modo a que os interesses imediatos não condicionem os interesses mais futuros e duradouros de um ambicioso projecto de criar um espaço de prosperidade, tolerância e paz numa região do globo rica em património histórico e científico, mas também sede dos maiores e mais sangrentos conflitos que assolaram o planeta.

OE 2012: mais um passo para afundar o pais na recessão tornando a bancarrota inevitável?


por Socialismo no Século XXI: uma Utopia, uma Mentira ou uma Solução?, domingo, 16 de Outubro de 2011 às 13:12

            O OE de 2012, pelo menos à primeira vista, parece um desesperado exercício de contabilidade destinado a arranjar dinheiro para pagar dívidas que não param de crescer. Para o conseguir, recorre ao modo mais fácil que é ir directamente aos bolsos dos funcionários públicos com vencimentos superiores, castigando os quadros médios e superiores que trabalham para o Estado, invocando a desculpa que o dinheiro que ganham não lhes faz tanta falta, passando um pano sobre o esforço de construir uma carreira desde os tempos da escola com a legítima ambição de ter uma melhor qualidade de vida do que se se mantivessem à sombra da bananeira.
            Os cortes salariais apresentados são um desincentivo ao mérito e ao trabalho. São cortes cegos que penalizam de igual modo quem contribui para a crise e que contribui para tirar o pais da crise. É um orçamento de Estado que protege os preguiçosos, os acomodados, os vigaristas e os “espertos”, à custa dos mesmos de sempre.
            Este Orçamento de Estado, para além de potenciar um sentimento de revolta crescente é um perigoso convite ao “deixa andar”, ao “que se lixe”. Há um sentimento de que quer se trabalhe muito ou pouco, melhor ou pior, o reconhecimento é sempre o mesmo: um despudorado assalto aos bolsos de quem trabalha, acabando por esvaziar toda a esperança num futuro melhor.
            Este Orçamento representa directamente um violento ataque à classe média, mas como é a classe média que sustenta o Estado Social, vai acabar, numa segunda fase,  por  se reflectir negativamente naqueles que diz proteger, os mais desfavorecidos.
            O Governo invoca com desculpa um eventual buraco orçamental da responsabilidade do governo socialista: não pediu Passos Coelho vezes sem conta aos técnicos do FMI um rigoroso escrutínio das contas Públicas? Quando se propôs substituir Sócrates, tinha obrigação de saber o real estado do país, a não ser que também a “troika”  tenha maquilhado as contas da nação...
            Depois da política da tanga, já só nos faltava a política do buraco...
            Passos Coelho criticou José Sócrates mas perante a contingência de ser obrigado a diminuir a despesa pública faz exactamente o mesmo: cortes cegos baseados em modelos teóricos. Os resultados deste tipo de política podem ser catastróficos: é como alguém que não percebe nada de agricultura ou botânica se lembrar de podar 10%, 20% ou 30% de uma árvore: corre o risco de cortar o que não devia e deixar ficar o que não interessa; em vez de cortar a gordura, corta o músculo e deixa ficar a gordura. Um corte deste tipo poderá cortar a despesa no curto prazo, mas vai eleva-la pouco tempo depois, pois vais continuar a ser gasto dinheiro para não fazer nada, ainda que menos, para depois se ter que gastar muito mais para fazer o que já devia ter sido feito.
            Dizem agora aqueles que o vão crucificar não tarda dois anos (Marcelos e afins...) que Passos Coelho não tinha alternativa.
            Não será bem assim, pois vários economistas já apontaram algumas alternativas.
            Se há cortes a fazer, devem essencialmente incidir sobre o que é redundante, depois de devidamente apurado o que é redundante e o que é essencial.
            Esse tipo de postura permitiria certamente manter parte do subsídio de Natal e de Férias, nem que limitado a um tecto máximo. Uma outra fonte de receita seria um maior combate aos indigentes fiscais que se pavoneiam em automóveis topo de gama desdenhando dos procuram (ou são obrigados) cumprir as suas obrigações perante o fisco.
            Para além disso é necessário domesticar a banca de modo a travar o escandaloso assédio aos cartões de crédito e ao crédito para o consumo de bens não essenciais quando sabemos que parte da culpa de chegarmos a onde chegamos se deve à despudorada concessão de crédito a quem se sabe que dificilmente o vai poder pagar.
            É também fundamental começar a investir na agricultura e pescas para diminuir a nossa dependência de importações para não morrermos de fome se se der a fatalidade de sermos chutados para fora do euro
            É certo que o governo de José Sócrates não fez melhor, também invocando a conjuntura internacional e seguindo políticas não muito diferentes. Mas também parece evidente que com este governo nada vai mudar na trajectória vertical descendente de um estado cada vez mais afundado no atoleiro da dívida, cada vez mais dependente de uma União Europeia em implosão, cada vez mais refém dos mercados até ao dia do fatal colapso.
            Penso que ainda há tempo do governo fazer um amplo debate das propostas e tentar renegociar alguns pontos com a oposição, nomeadamente com o Partido Socialista – e até com a União Europeia -  de modo a tentar amenizar os efeitos colaterais de uma terapêutica radical que, quase de certeza, vai acabar por matar o doente.
            Em Portugal já temos os “Indignados” e os “Resignados”...
            Não queiramos ter os “Desesperados”...

Mobilizar os Partidos Socialistas Europeus de modo a encontrar uma solução eficaz para a crise, dentro e fora da Europa


por Socialismo no Século XXI: uma Utopia, uma Mentira ou uma Solução?, domingo, 2 de Outubro de 2011 às 11:22



            A actual crise económica tem sido já bastante estudada e as suas causas discutidas. Factores como o sobreendividamento motivado pela ganância do lucro fácil da banca fomentando créditos para tudo e mais alguma coisa, a deslocalização de postos de trabalho para países com rudimentares padrões de protecção social, a complacência do poder político e outros tantos factores contribuíram para um fácil diagnóstico do ponto onde chegamos e para nos fazer suspeitar que dias piores nos aguardam.
            Seria de esperar que uma crise que dificulta a vida aos trabalhadores, corrói o Estado Social, levasse os cidadãos a procurarem o apoio dos partidos de esquerda, mas, paradoxalmente o que se verifica é uma ascensão em toda a Europa dos partidos de direita e uma “vassourada” geral dos partidos socialistas europeus, que acabam por arcar com o ónus da culpa pelo estado a que chegamos.
            As receitas da Direita internacional para resolver a crise assentam em políticas de mais e mais austeridade, diminuindo a despesa pública e contraindo o Estado Social a uma amostra residual do que era até bem pouco tempo atrás.
            A Grécia é um exemplo e laboratório de testes que demonstram que as soluções apontadas pelos ideólogos a soldo dos grandes grupos económicos para resolver a crise só acrescentam crise à crise, aumentando o número de trabalhadores desempregados, diminuído o consumo, desacelerando a economia, contraindo o PIB. A solução miraculosa para resolver os deficits crónicos das contas públicas dos estados em dificuldades (nos quais tem de se incluir os Estados Unidos...) passa por aumentar as exportações… Sendo assim, Portugal tem de aumentar as exportações, a Grécia tem de aumentar as exportações, a Irlanda tem de aumentar as exportações, os Estados Unidos têm de aumentar as exportações, etc...
            Será que os recursos do planeta conseguem aguentar uma tão grande sobrecarga de aumento de exportações para aumentar PIBs de modo a equilibras as contas públicas dos países afectados?
            E exportar para quem? Para os países emergentes que têm custos sociais de produção muito inferiores aos nossos?
            Numa União Europeia cada vez mais desunida e individualista impõe-se mudar o rumo.
            Não é apenas o Partido Socialista de Portugal que precisa de iniciar um novo ciclo, mas sim todos os Partidos Socialistas europeus que devem dar início a uma reflexão sobre como foi possível chegar até aqui e principalmente como podemos sair desta crise mantendo uma sociedade solidária, que respeite os direitos dos trabalhadores.
            Para situações novas são necessárias respostas novas. Se é certo que o modelo ultra-liberal só vai agravar as dificuldades dos Europeus, aumentar as assimetrias quer intra-estado quer entre estados, é também certo que os socialistas europeus só poderão ambicionar ser parte da solução do problema se ousarem soluções inovadoras.
            Não entendo que faça sentido caminharmos no sentido de nos auto-escravizarmos criando desemprego para poder pagar cada vez menos a quem trabalha, que por sua vez terá que trabalhar maior número de horas e mais anos que fariam falta a uma camada jovem altamente qualificada condenada a viver na casa dos pais.
            Não me parece também que possamos continuar a encher as superfícies comerciais de produtos de baixo custo e ignorar os custos sociais desses produtos.
            É preciso desmontar todo o modelo neo-liberal apadrinhado pelos socialistas que se iludiram com a Terceira Via de Blair, é preciso regressar aos anos sessenta e descobrir porque é que a sociedade prevista para o ano 2000 não se concretizou.
            Só fazendo uma análise retrospectiva de tudo o que devia ter sido mas não foi, só regressando à raiz do problema podemos construir um caminho que permita construir uma sociedade solidária, que respeite os trabalhadores, que respeite a dignidade humana, que se inspire na ética e que tenha em vista o bem-estar do comum dos cidadãos e não apenas o lucro de alguns.
            Provavelmente teremos de repensar o nosso actual padrão de bem-estar baseado no consumo, descendo um ou dois degraus, mas ganhando em contrapartida mais tempo livre e outro tipo de qualidade de vida que dispense os últimos gadgets de moda, os símbolos de status, as marcas prémium, mas que nos garanta uma vida socialmente mais saudável.
            Se não conseguirmos, entre os socialistas e democratas, encontrar a fórmula mágica que trave o ciclo de autodestruição que iniciamos seremos co-responsáveis de uma provável implosão bélica da união europeia, equivalente à que aconteceu em 1939.

A propósito dos resultados eleitorais do passado dia 5 de Junho


            Os presentes resultados eleitorais mostram de uma forma clara e inequívoca que não basta uma boa retórica e uma imagem cuidada para vencer umas eleições. Mostram também que não é repetindo vezes sem conta os malefícios do chumbo do PEC IV e acenando o bicho-papão do ultra-liberalismo que se consegue conquistar um povo desiludido com o aumento de impostos, com o aumento do desemprego, com o encerramento de urgências, de maternidades e de escolas, com a supressão do abono de família, com a facilitação dos despedimentos, com a introdução de portagens nas SCUT e com a diminuição de salários. O povo poderá eventualmente ser levado por folclore, mas não é masoquista e, se não pode  deixar de levar com o chicote nas costas e carregar com a canga, pelo menos resolveu mudar a mão que o castiga.
            José Sócrates teve a coragem de tentar dar um novo rumo ao país, promover mudanças significativas na pesada e lenta máquina burocrática do Estado, traçar um rumo para promover o desenvolvimento do país, apostando, e bem, na qualificação profissional, nas novas tecnologias, nas energias renováveis e na reorganização da Administração Pública e Serviços Públicos.
            O governo reformista de José Sócrates teria prosseguido no bom caminho se não fosse – na minha opinião - tão autista, “tecnicocêntrico”,  se tivesse respeitado mais as pessoas que foram trucidadas pelas mudanças sem que tivessem feito algo para o merecer – danos colaterais em qualquer reforma a executar – se tivesse dado mais  prioridade a  gestores competentes e menos a gestores obedientes, se admitisse que nem sempre os resultados são aqueles que esperamos e que por vezes é necessário corrigir a trajectória, enfim, se tivesse apostado um pouco mais na humildade e no diálogo.
            É importante fazer reformas, o país precisa de reformas estruturais, mas é necessário ter a preocupação de envolver as pessoas nessas reformas de modo a que elas sintam que o resultado final dessas reformas é um Portugal mais justo, mais próspero e onde se viva com mais qualidade.
            Os resultados eleitorais mostram claramente que não foi essa a percepção dos portugueses, os quais optaram por se afastar do Partido Socialista e entregar o seu voto a uma incógnita em que parecem não acreditar totalmente chamada Pedro Passos Coelho.
            O Partido Socialista é um grande partido português e há-de certamente regressar ao poder pois é o bastião de um estado solidário, fraterno, com preocupações sociais, defensor inabalável do Estado Social, valores de que os portugueses não querem abdicar. Espero sinceramente que saiba retirar as ilações deste desaire eleitoral e se reaproxime da sua base de apoio de modo a merecer de novo a confiança dos portugueses.